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Introdução - Segunda Vida (2Cel)

No Capítulo Geral de Gênova, em outubro de 1244, foi decidido que se pedisse a colaboração de todos os frades para complementar a biografia de São Francisco. O geral então eleito, Frei Cescêncio Grizzi de Iesi, mandou uma circular pedindo que mandassem "tudo que pudessem saber de verdade sobre a vida os sinais e os prodígios de São Francisco".
As respostas devem ter sido muitas, destacando-se, no nosso conhecimento, a colaboração que foi enviada de Grécio, aos 11 de agosto de 1246, pelos famosos "três companheiros".
Todo o material deve ter sido entregue pelo ministro geral a Frei Tomás de Celano, para que escrevesse uma nova "Vita" de Francisco. O escritor deve ter trabalhado nessa tarefa em 1247.
Apresentou uma obra em dois "livros", ou duas partes, que se diferenciam. A primeira, mais curta (1-25) é obra pessoal de Celano, segue uma ordem cronológica e refaz alguns pontos de "Vida I". A segunda (26-224), com a ajuda de colaboradores, pois o autor demonstra ter mantido contato com os informantes, apresenta uma coleção bastante variada de episódios inéditos que vão apresentando as virtudes, as vontades, os ditos e os feitos do santo, visando mostrar como os frades deviam viver.
Queimada em 1266, a Vida II só foi descoberta e publicada por S. Rinaldi, em 1806. A edição crítica, apresentada pela AF X em 1941, só conseguiu trabalhar sobre dois códices e mais algumas citações de outros livros. Também está, em latim, nas "Fontes Franciscani".
Todo o conteúdo da Vida II é um exce-lente testemunho da imagem que se tinha de Francisco nesse tempo, vinte anos de-pois de sua morte, principalmente quanto aos problemas que estavam sendo vivi-dos dentro da Ordem.
A situação da Ordem
Através dos comentários apresenta-dos dentro da própria biografia, desco-brimos que, mesmo reconhecendo todo o bem que Deus está realizando na Or-dem, Celano está preocupado com al-guns abusos:
Há frades que se vestem com panos finos e peles (69, 130) e até invejam os que têm coisas melhores (84). Alguns são imprudentes com as mulheres (112) e mesmo com as religiosas (207). Há irmãos que buscam os elogios das pessoas (139) e, entre eles, há ciúmes, ambição, dis-putas e ódio (149), como críticas (182) e muito falatório (162).
Há preguiça no tra-balho, no aposto-lado e na contemplação (162) e abusos até nos eremitérios (179). Os superiores são muito tolerantes (162), não corrigem os que erram e só querem mandar (173), deixando de ajudar os caídos e feridos (177). Há frades que se esquecem da humildade (194) na busca da ciência, vi-sando o próprio proveito (195).
No final, vai dizer a Francisco que:
O pequeno rebanho já te segue com passo inseguro. Nossos pobres olhos ofuscados não suportam os raios da tua perfeição (221).
Apesar disso, o autor acredita na sin-ceridade dos frades mesmo quando se queixa deles diante de Francisco.
O Primeiro Livro da Vida II
O primeiro "livro" da Vida II insiste na mesma apresentação de Francisco en-contrada na Vida I, ainda que se esqueça de sua juventude dissipada, mostrando-o como o mais santo dos fundadores.
Francisco é, agora, um jovem muito diferente daquele da Vida I, "criado pelos pais no luxo desmedido e na vaidade do mundo". É "servo e amigo do Altíssimo", "filho da graça", admirado pela "hones-tidade e magnanimidade" (3). Até imitou São Martinho (5) e, por amor aos pobres decidiu nunca negar nada que fosse pe-dido em nome de Deus (17).
A visão do palácio (1Cel 5) é ilumina-da por outra visão (2Cel 6); o abraço ao lepro-so é iluminado pela oração que o faz trasnformar o amargo em doce (9). A cena da entrega da roupa ao pai (1Cel 15) volta mas agora ele declara: "Irei nu para o Se-nhor" , porque Cristo lhe basta.
Na Vida I (18-19) reparar São Damião está mais ligado à fundação das Irmãs Pobres, enquanto na Vida II (10-11) já é Cristo que intervém para ele repare a Igreja de todo o mundo.
É interessante comparar a entrada de Frei Bernardo. Na Vida I (24), ele cumpre os conselhos conhecidos; na Vida II (15), abre os Evangelhos três vezes com Fran-cisco e Pedro Catani, em uma sugestiva cerimônia.
A Porciúncula passa de um lugar simplesmente muito santo (1Cel 106) a um centro de luz e salvação para os fra-des e para todo mundo (2Cel 18-20).
Mas apresenta dois fatos novos muito importantes: o colóquio de Francisco com o Crucifixo de São Damião e o sonho de Inocêncio III, que viu o pobrezinho sus-tentando a igreja do Latrão. São dois pontos escolhidos para mostrar a im-portância de Francisco e de seu movi-mento na renovação da Igreja. Em 1247, essa verdade já podia ser reconhecida.
Não é à-toa que o primeiro livro termina contando que Francisco pediu um cardeal protetor ao Papa e que a isso se deve todo amor e cuidado que a Igreja sempre demonstrou para com os frades.
Mas o mais importante é observar desde o primeiro livro como Celano vai respondendo a duas grandes preocu-pações da Ordem no seu tempo: conhecer os milagres de Francisco e, acima de tudo, conhecer suas verdadeiras intenções. Certamente porque já havia muitas si-tuações novas, muitos caminhos diferen-tes e muita dis-cussão sobre o que ele en-sinara. São pontos para ler com atento espírito crítico.
É bom reler o que ele deixou escrito no Prólogo:
Este opúsculo contém, em primeiro lugar, alguns fatos admiráveis da conversão de Francisco, que não foram colocados nas biografias anteriores porque não tinham chegado ao conhecimento do autor. - Além disso, queremos contar e explicar diligentemente qual foi a vontade boa, agradável e perfeita do santo pai tanto em relação a si mesmo como aos seus, em toda a prática da disciplina celeste e no esforço da perfeição, que sempre teve para com Deus em seus afetos e para com os homens em seus exemplos.
O Segundo Livro da Vida II
Na segunda parte, em 199 parágrafos, a Vida II deixa de seguir a ordem crono-lógica e lembra, com episódios inéditos, as virtudes, as vontades, os ditos, a ação do santo, com a intenção evidente que compor uma obra correspondente à ética franciscana. Esses contos fazem pensar nas "flores" dos Três Companheiros, mas não podem provir todos de Greccio.
Para apresentar o trabalho da equipe de Celano, vamos resumir o conteúdo dos grandes temas:
A). Espírito profético: (27-54) "... não só sabia por revelação divina o que devia fazer, mas predizia muitas coisas com espírito profético, penetrava os segredos dos corações, estava informado das coisas ausentes, previa e contava coisas que deviam acontecer" (27).
B). Pobreza (55-93): "...desprezou as míseras riquezas... e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo co-ração à pobreza" (55).
56-59 — pobreza das casas; 60-62 — dos utensílios; 63-64 — das camas; 65-68 — contra o dinheiro; 69-70 — das roupas; 71-79 — a mendicância; 80-81 — renún-cia dos bens; 82 — visão da pobreza; 83-93 — compaixão com os pobres.
C). Amor à oração (94-101): “Afastado do Senhor pelo corpo, o homem de Deus, Francisco, procurava fazer seu espírito estar presente no céu" (94).
D). Compreensão das Escrituras e va-lor de sua palavra (102-111): “não era pou-co o que entendia das Sagradas Escri-turas".
E). Familiaridade das mulheres (112-114): “Mandava evitar totalmente o mel venenoso que é a familiaridade com as mulheres" (112).
F). Tentações (115-118): "Na medida em que cresciam os méritos de Francisco, crescia também sua discordância com a antiga serpente". Sua luta (119-124).
G). Alegria espiritual (125-129): "tra-tava de viver sempre no júbilo do co-ração, conservando a unção do espírito e o óleo da alegria" (125). - A falsa alegria (130-134). - Como escondia as chagas (135-139).
H). Humildade (140-150): "Era hu-milde de presença, mais humilde de sen-timento e muito mais humilde no modo de pensar" (140).
I). Obediência (151-154): "O Senhor me deu a graça de ser capaz de obedecer a um noviço de uma hora tanto quanto ao mais antigo e mais discreto dos frades" (151).
J). Bom exemplo (155-158): "... os fra-des menores foram enviados... para dar exemplos de luz aos pecadores envolvi-dos nas trevas" (155). - Contra a ocio-sidade (159-162).
K). Os ministros da Palavra (163-164): “foram escolhidos por um grande rei para transmitir aos povos as palavras que colhessem de sua boca" (163).
L). Contemplação (165-171): "Reco-nhecia que todas as coisas clamavam: Quem nos fez é ótimo" (165).
M). Caridade (172-181): “... a caridade de Cristo fez dele um irmão ainda maior daqueles que foram distinguidos pela se-melhança com o Criador" (172). - Contra a detração (182-183).
N). Descrição do Ministro (184-188): “quero traçar para vós o retrato...
O). A santa Simplicidade (189-195): "era o ideal a que desejava chegar o santo" (189).
P). Devoções particulares (196-203): amor a Deus, a os anjos, a Maria, ao Na-tal, Eucaristia, relíquias e cruz.
Q). Relacionamento com as Senhoras Pobres (204-207): "Não penseis que não as ame com perfeição. Se fosse crime ajudá-las em Cristo, não seria crime maior tê-las unido a Cristo?" (205).
R). Recomendação da Regra (208-209): "Tinha um zelo ardente pela pro-fissão e pela Regra" (208).
S). Doenças (210-213): "Pregoeiro de Deus, seguiu os passos de Cristo no meio de trabalhos sem conta e de fortes sofri-mentos, e não arredou o pé... (210).
T). Passamento (214-220): "Amou os seus até o fim e recebeu a morte can-tando" (214).
U). Oração dos companheiros (221-224).
"Francisco" e as Mulheres
Um exemplo interessante de como de-vemos fazer uma leitura crítica das bio-grafias pode ser o das opiniões sobre as mulheres que Celano atribui a Francisco.
A seção "Contra a familiaridade das mulheres" (112-114) e mesmo a que trata das Senhoras Pobres (204-205) apresen-tam um Francisco contraditório com o que lemos em seus escritos e em muitas outras passagens de sua vida. Ele parece até ter medo das mulheres, julgando sua companhia um "mel venenoso".
É preciso lembrar que Celano está escrevendo vinte anos depois da morte do santo, quando a comunidade do tem-po de Francisco se transformara em uma multidão e, como capelão das Clarissas em Tagliacozzo, pode ter mesmo obser-vado abusos por parte dos frades.
Mais importante: ele está escrevendo no tempo mais quente da pendência entre o papa e os superiores da Ordem por cau-sa das Irmãs. Inocêncio IV mandara, em 1245, que os frades assumissem o cui-dado de todas as Clarissas do mundo. Por esse tempo, os mosteiros podiam ser cer-ca de du-zentos. Como colocavam habi-tualmente um capelão e seu auxiliar, mais dois esmoleres, teriam que destinar oi-tocentos frades para trabalhar nos mos-teiros, cortando uma porção de oportunidades de missões e de estudos. Por isso, os superiores da Ordem resistiram quan-to puderam. Em 1247, no mesmo ano em que Celano estava escre-vendo, o Papa fez o ministro geral Crescêncio de Iesi re-nunciar por causa disso. É bem provável que Celano estivesse expressando as idéias dele pessoalmente e de alguns su-periores da Ordem. Mas as atribuiu a Francisco, cuja autoridade era reco-nhecida por todos.
Pessoas citadas na Vida II
Uma observação interessante: escrita em 1247-48, a Vida II nunca cita pelo nome pessoas vivas, só as mortas. De São Francisco, que tinha morrido em 1226, ela fala 200 vezes; de Hugolino, morto em 1241, fala sete vezes. Frei Pacífico, que morreu em 1236, também é mencionado sete vezes. Pedro Catani, lembrado seis vezes, tinha morrido em 1221; mas Frei Bernardo, morto em 1242, também é lem-brado seis vezes. Frei Silvestre , falecido em 1240, merece quatro menções, en-quanto Frei João, o Simples, que não sabemos quando morreu, aparece três vezes. Inocêncio III, lembrado duas ve-zes, tinha morrido em 1216, enquanto o papa Honório III, que terminou seus dias em 1227, só é citado uma vez. Aparece também o nome de Frei Morico, que mor-reu em 1236.
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